quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Conto de Natal - Rubem Braga

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

www.releituras.com/rubembraga_contonatal.asp

O espírito natalino e o cinema

Neste mês de dezembro gostaríamos de homenagear os clássicos do cinema cuja temática está relacionada aos motivos natalinos.



Cena do filme Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli



Cena do filme Gandhi, de Richard Attenborough.

Siga o link:

E veja as ilustrações do conto de Charles Dickens, Um conto de Natal... depois divirta-se e leia o conto!!!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Última Sessão de 2011

Galerinha,
 Nesta quarta-feira, 07/12 teremos a última sessão de cinema deste ano,
 o filme será "As Mães de Chico Xavier",
o ingresso será 1 kg de alimento não perecível
 e daremos início à exibição às 19:30 hs,
no Cine Teatro Coliseu.

Façam suas reservas: 3692- 2008

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Curiosidades

Em 1973, Grande Otelo interpretou o Negrinho no filme Negrinho do Pastoreio.





E, atualmente, faz sucesso o filme Netto e o domador de cavalos, obra que se propõe a fazer, entre
outras coisas, uma releitura da lenda do Negrinho que perdeu a carreira e o dinheiro de seu senhor.





Era uma vez


Mário Barbará e Aparício Silva Rillo

Era uma vez um potrinho baio
Era uma vez um negrinho só
Quando o potrinho fez-se potro o negrinho
Continuou pequenininho, e cada vez mais só
Foi uma vez uma carreira grande
O corredor era o negrinho só
Um baio raio tropeçou na raia
Libras de ouro se fizeram pó, e o negrinho só
Acenda velas quem não sabe o resto
Da velha história que eu cortei ao meio
E ao pé da vela deixe fumo em rama
Para
o negrinho do pastoreio
Galopa, 'lope, galopa
Cavalo de assombração
Baio raio pêlo de lua
Risca, xispa na escuridão
Vai o casco, fica o rastro
Passa um vulto, fica o susto
Quem viu, duvida que viu
Quem pensa que viu, não viu
Quem viu, duvida que viu
Quem pensa que viu, não viu
Galopa, 'lope, galopa
Cavalo de assombração
Baio raio pêlo de lua
Risca, xispa na escuridão
Baio raio pêlo de lua
Risca, xispa na escuridão
Baio raio pêlo de lua

Negrinho do Pastoreio


Negrinho do Pastoreio
Acendo essa vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi

Negrinho do Pastoreio
Traz a mim o meu rincão
Eu te acendo essa velinha
Nela está meu coração

Quero rever o meu pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
A brincar na água da sanga

E a trotear pelas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade



terça-feira, 15 de novembro de 2011

URGENTE - MUDANÇA NA DATA DE EXIBIÇÃO

Avisamos que o filme quilombo que seria exibido nesta quinta feira dia 17 foi adiado para  o dia 24 de novembro, devido ao feriado. A sessão será no Instituto Federal Sul-rio-grandense e o ingresso será 1 kg de alimento não perecível.

Contamos com sua participação!

Atenciosamente,

Victória Viatroski e Vera Haas